Doença de Parkinson – quando há coisas difíceis de engolir!

Deglutimos inúmeras vezes ao longo do dia, automaticamente, sem nos apercebermos.

Nunca pensamos muito no assunto, mas refletindo, podemos aperceber-nos rapidamente do quão importante é a deglutição no dia-a-dia. Esta capacidade permite-nos:

  • alimentarmo-nos, mastigando os alimentos e transportando-os da boca para o estômago;
  • hidratarmo-nos, através da ingestão de líquidos;
  • e gerir a quantidade de saliva que vamos produzindo ao longo do dia.

Cerca de 90% das pessoas com Doença de Parkinson idiopática desenvolve uma série de alterações relacionadas com a capacidade de deglutição que se denomina disfagia.

 

Mas afinal, o que é a disfagia e como se manifesta na Doença de Parkinson?

A disfagia corresponde ao conjunto de dificuldades relacionadas com a capacidade de deglutir, sejam elas a dificuldade em mastigar, controlar a saliva, movimentar o alimento na boca ou engolir.

 

O que acontece na Doença de Parkinson?

 

O mecanismo de deglutição depende, essencialmente, de dois elementos básicos:
1. comando do Sistema Nervoso Central (Cérebro), que envia informação aos

2. músculos da boca (lábios, língua, bochechas, palato), faringe, laringe e esófago, para que se contraiam e movimentem os alimentos.

 

Na Doença de Parkinson, a função dos músculos pode alterar-se como consequência da disfunção do comando central existente. Tal como acontece com os restantes músculos do corpo, também os músculos da fala e da deglutição podem sofrer alterações que podem incluir:

  • tremor lingual;
  • rigidez mandibular: sensação de que a mandíbula está rígida, tornando difíceis os movimentos de abertura e encerramento da boca;
  • queda anterior de alimento: perda de alimentos pelos lábios, durante a mastigação;
  • contração faríngea reduzida e atrasada: a contração dos músculos da faringe é importante para o transporte dos alimentos em direção ao esófago no momento adequado do mecanismo de deglutição;
  • elevação laríngea reduzida e lentificada: a elevação da laringe é um importante mecanismo de proteção das vias respiratórias, que evita a entrada de alimentos no pulmões;
  • abertura dos esfíncteres esofágicos (superior e inferior) atrasada e lentificada: a abertura destes esfíncteres possibilita a passagem dos alimentos da faringe para o esófago, em direção ao estômago.
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Faringe

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Língua

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Valéculas

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Traqueia (entrada dos pulmões)

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Laringe

 

 

 

 

 

 

Mas…

Qual o impacto destas alterações, na prática?

  • défice no controlo do bolo alimentar, ou seja, dificuldade em movimentar e controlar os alimentos na boca. Por vezes pode tornar-se difícil colocar o alimento na posição certa para ser mastigado ou deglutido, ou mantê-lo dentro da boca.
  • transito oral ineficiente: pode existir tendência para a acumulação de resíduos entre os dentes e as bochechas ou dificuldade em deglutir o bolo alimentar de uma só vez.
  • aumento do tempo de trânsito oral, isto é, aumento do tempo que o alimento permanece na boca em preparação, até a pessoa deglutir.
  • queda prematura de bolo alimentar para a zona posterior: pela dificuldade no controlo dos movimentos da boca, o alimento pode cair para trás antes de a pessoa deglutir, causando situações de engasgo, tosse ou asfixia.
  • estase nas valéculas ou nos seios piriformes: pela  ineficiente contração dos músculos da deglutição, podem acumular-se alimentos em pequenas cavidades na zona da faringe e da laringe, que não são adequadamente deglutidos, e podem entrar nos pulmões.
  • penetração/aspiração pulmonar: corresponde à entrada de alimento nas vias respiratórias e pode causar infeções respiratórias.
  • refluxo gastroesofágico: vulgarmente designado por azia.

 

Todas estas alterações podem ter um impacto psicossocial significativo ao nível da autoestima, e promover ansiedade relativamente aos momentos de alimentação e o isolamento social.

 

Em caso de disfagia, o Terapeuta da Fala é o Profissional de Saúde competente para intervir e reabilitar a deglutição.

A Terapia da Fala pode ajudá-lo a:

  • identificar os sinais e sintomas de disfagia;
  • reabilitar o mecanismo de deglutição;
  • ajustar a alimentação ao seu grau de disfagia, para que se possa alimentar de forma segura;
  • utilizar estratégias, como manobras e posturas corporais que facilitam a deglutição de pessoas com disfagia.

 

Conheça os sinais e sintomas de disfagia.

Fonte: Plowman-Prine, E. K., Sapienza, C. M., Okun, M. S., Pollock, S. L., Jacobson, C., Wu, S. S., & Rosenbek, J. C. (2009). The relationship between quality of life and swallowing in Parkinson’s disease. Movement Disorders: Official Journal of the Movement Disorder Society, 24(9), 1352–1358. doi:10.1002/mds.22617

 

Imagens: http://www.disfagia.ufrj.br/videos_imagens_anatomicas_b1011.htm